Domingo, Setembro 18, 2005

A Canção Mais Triste

Experimentar A Canção Mais Triste do Mundo é como entrar no radiador de Eraserhead, o filme de David Lynch. Muito estranho. Para entender o novo filme do canadiano Guy Maddin é preciso imaginar. Na verdade, este é um dos objectos de cinema mais bizarros alguma vez feitos e vale a pena por isso mesmo. Pela diferença.

Se é preciso imaginar, imagine-se. A estória leva-nos a um concurso para encontrar a canção mais triste do mundo promovido por uma cervejaria no Canadá. O prémio é uma quantia choruda de doláres... Tudo isto durante a Grande Depressão americana. Afinal, qual é a melhor altura para vender cerveja? Lady Port- Huntly acha que a tristeza consome cerveja. E tem razão. Lady Port-Huntly só não tem é pernas.

Guy Maddin quis fazer uma comédia que remetesse para um universo de bizarria. Conseguiu. A Canção Mais Triste do Mundo é algo difícil de definir mas uma coisa é certa, é um filme bizarro. Não é uma comédia nem um drama. Poderia ser um musical agri-doce mas falta-lhe as cores saturadas e os vestidos de lantejoulas. Por vezes, o estilo remete para os clássicos expressionistas mas logo surgem alguns elementos do céu que deturpam essa visão. Talvez este seja o aspecto que mais fragilize o filme. A indefinição de género mascarada por um preto e branco saturadíssimo, ora com grau ora não, ora isto ora aquilo.

David Lynch é o primeiro nome que podemos associar a esta experiência made in Canada. Pelo tom da obra e pela escolha de actores. Isabella Rosselini remete imediatamente o espectador para Blue Velvet e todas as outras personagens apresentam traços de um ou outro filme de Lynch. Curioso será verificar a participação de Atom Egoyan (realizador de O Futuro Radioso) que inicialmente foi apontado como realizador e depois acabou como produtor executivo.

Guy Maddin é dono de uma carreira longa marcada por um certo experimentalismo. Aqui esticou a corda com ingredientes entre o surreal e o grotesco: um par de pernas de vidro cheias de cerveja, uma sérvia amnésica (interpretada por Maria de Medeiros), uma banda de olhos vendados, uma piscina de cerveja (outra vez!), países que se confrontam através das suas músicas tradicionais...

A propósito, onde está o fadinho lusitano? Essa sim é a canção mais triste.